De Itaberaí para os EUA: Goiana se torna piloto e realiza sonho nos céus

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Camile Melo

Fabricia define o prazer de pilotar não apenas como profissão, mas como “um milagre diário”. Voar, segundo ela, é muito mais que um trabalho

De diarista a piloto de avião, a trajetória da goiana Fabricia Azevedo encanta leitores que buscam inspiração em histórias reais e surpreendentes no Brasil e nos Estados Unidos. Aos 28 anos, Fabricia saiu de Itaberaí, cidade pequena do interior de Goiás, e conquistou feitos marcantes ao se estabelecer nos EUA. Sua jornada é marcada por superação, coragem e determinação — características fundamentais para quem deseja se reinventar em outros países.

Nascida em uma família humilde do noroeste goiano, Fabricia jamais imaginava que teria a chance de cruzar os céus americanos pilotando aeronaves executivas grandes e modernas. Ela iniciou sua carreira em áreas diferentes, trabalhando como vendedora, diarista e ajudante de obras antes de dar os primeiros passos na aviação. Os desafios enfrentados, assim como os laços com sua terra natal, mostram que as oportunidades podem surgir mesmo diante das maiores adversidades. E, claro, o apoio de pessoas decisivas foi fundamental nesse processo.

Sua decisão de imigrar para os Estados Unidos aconteceu de forma inesperada. Fabricia buscava, inicialmente, alternativas para pagar a faculdade de Direito e garantir independência financeira. Ao aceitar o convite de um amigo para tentar a vida em Palm Beach Gardens, na Flórida, ela encarou todas as barreiras: idioma, cultura e a necessidade de recomeçar. Como muitas brasileiras, começou fazendo faxinas, agarrando qualquer oportunidade. O trabalho braçal serviu para abrir portas na economia local, mas o principal: desenvolveu uma resiliência pouco comum.

Desafios e conquistas no exterior

Mesmo sem dominar o inglês no início, Fabricia encontrou soluções criativas para aprender rapidamente. Enquanto trabalhava na limpeza, desenvolveu métodos próprios — colava palavras nos móveis do quarto, escrevia termos novos nos braços e praticava com nativos sempre que podia. Após cerca de seis meses, já conseguia se comunicar com fluência e ampliava suas perspectivas profissionais nos EUA, algo vital para migrantes recém-chegados nas cidades americanas.

O turning point em sua trajetória aconteceu durante um dos trabalhos de faxina. Proprietários de uma das casas atendidas por Fabricia tinham negócios no setor aéreo e notaram seu talento e o domínio acelerado do inglês. Surgiu ali o convite para atuar inicialmente como aeromoça executiva, o que logo se transformou em paixão pela aviação. Mesmo sem ter experiência anterior — sua única viagem de avião, até então, tinha sido de Itaberaí para Palm Beach Gardens — Fabricia não hesitou em investir em cursos de especialização e capacitação no setor. A trajetória incluiu a presença em eventos internacionais, como a convenção da National Business Aviation Association (NBAA), referência no setor para conectar profissionais e empregadores.

Empreendendo em múltiplas frentes, Fabricia conciliou a rotina da aviação executiva como comissária de bordo com a carreira de corretora de imóveis nos intervalos entre voos. Realista quanto às dificuldades e determinada a conquistar espaços, ela destaca o quanto foi importante diversificar sua atuação, característica compartilhada por muitos brasileiros que buscam estabilidade fora do país. Nessa fase, os contatos no setor aéreo se fortaleceram e os planos para voar ainda mais alto começaram a se desenhar.

O caminho até a cabine de comando

Um momento, em especial, foi determinante para a guinada definitiva na vida de Fabricia. Em um voo de retorno, já como aeromoça, o copiloto propôs que ela ocupasse o assento ao lado do comandante e experimentasse, de forma supervisionada, algumas manobras com segurança. Segundo ela, foi o instante em que percebeu que havia encontrado sua verdadeira vocação. A sensação de controlar uma aeronave despertou o desejo de buscar as licenças e habilitações necessárias para se tornar, de fato, uma piloto de aviões executivos.

Os anos seguintes foram intensos e marcados pela dedicação aos estudos e cursos exigidos para a formação de aviadores profissionais nos EUA. Fabricia fez treinamentos em centros especializados no Texas, na Califórnia e na própria Flórida. Nessa fase, ela enfrentou exames rigorosos, simuladores e avaliações práticas. Como ela mesma relata ao DE, essa carreira exige atualização constante, domínio técnico e resiliência frente à pressão — características cada vez mais valorizadas no cenário da economia globalizada.

O processo para se tornar piloto profissional passa por etapas detalhadas: obter a licença de piloto privado, habilitação para voar em instrumentos (o chamado “IFR”), licença para aeronaves bimotores e, finalmente, autorização para exercer a função como profissão. Fabricia seguiu esse roteiro à risca, estudando em diferentes estados americanos e investindo seu tempo e dinheiro. Em 2023, finalmente, conquistou o sonho antigo: assumiu a cabine de comando de jatos executivos, realizando voos nacionais e internacionais para clientes de alto padrão.

Reconhecimento e novos desafios

Hoje, Fabricia celebra conquistas concretas: já conseguiu comprar seu primeiro imóvel em Miami, um feito marcante para quem, poucos anos antes, dividia um quarto alugado para sobreviver. Os ganhos médios de um piloto de aviação executiva nos EUA podem ultrapassar R$ 50 mil por mês, segundo estimativas do setor. A rotina segue exigente, com escalas dinâmicas e a necessidade de conciliar estabilidade em solo com os longos períodos fora de casa. Ainda assim, ela destaca a liberdade e a satisfação proporcionada pela rotina de voar.— “É o que eu realmente amo fazer”, afirmou ao DE.

Entre os voos mais marcantes em sua carreira, estão viagens para o Brasil, Peru, Argentina, Reino Unido, Islândia e Bahamas, este último considerado um dos seus principais destinos profissionais. A atuação internacional reforça a projeção positiva dos pilotos brasileiros na aviação mundial. Fabricia também participou de treinamentos avançados ministrados por instrutores da Topgun, a famosa escola de formação de elite da Marinha americana — símbolo da excelência no ensino do setor aéreo. Esse investimento em capacitação fortaleceu ainda mais sua posição entre os profissionais do segmento, e alimentou o desejo de buscar novos patamares.

Em paralelo à carreira, Fabricia mantém a preocupação em apoiar a família que ficou no Brasil, reiterando o vínculo afetivo com suas origens. Muitas vezes, relata, o envio de recursos para parentes é uma motivação extra para buscar oportunidades e crescer no mercado internacional. Suas conquistas refletem parte do movimento migratório que transforma vidas tanto no Brasil quanto em destinos importantes das cidades americanas, contribuindo com novas perspectivas e talentos na comunidade local.

O que esperar para os próximos dias? Fabricia já mira voos ainda maiores, como a obtenção da licença de piloto de linha aérea — estágio máximo para profissionais que integram grandes companhias. Ela revelou ao DE o sonho de pilotar aeronaves de grande porte, transportando dezenas de passageiros em rotas de alto prestígio. “Todo piloto tem vontade de voar uma aeronave maior, carregar todos os passageiros atrás. Acho que todos nós carregamos esse sonho dentro do coração, de chegar a esse nível.”

De acordo com especialistas, a participação crescente de mulheres na aviação executiva e comercial evidencia uma transformação cultural importante no setor. Fabricia se destaca não apenas pela trajetória pouco convencional — de diarista a comandante — mas também por servir de referência para outras jovens sonhadoras. Sua presença nas redes sociais e compartilhamento de dicas serve como estímulo à representatividade feminina, inspirando brasileiros e brasileiras em busca de mudança.

Além de considerar planos para empreender na área aeronáutica, Fabricia também já pensa em abrir oportunidades para outros brasileiros interessados em iniciar carreira semelhante nos Estados Unidos. Em entrevista ao DE, declarou: “O mais importante é não desistir diante dos obstáculos. Se eu consegui, outras pessoas podem chegar lá também.” O caminho é árduo, mas com foco e dedicação, é possível transformar a realidade em qualquer parte do mundo — lição que se alinha a outras trajetórias de migrantes e empresários brasileiros que triunfaram em grandes cidades americanas.

Por fim, Fabricia define o prazer de pilotar não apenas como profissão, mas como “um milagre diário”. Voar, segundo ela, é muito mais que um trabalho — é realização de um projeto pessoal, conquista de autonomia e construção de uma nova identidade. Sua história serve de incentivo para milhares de outros jovens do Brasil que buscam se destacar, seja no ramo da economia, da aviação ou em qualquer mercado do exterior, reforçando a capacidade de reinvenção do brasileiro diante dos desafios globais.

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Diário do Estado

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